
Dessa vez, porém, posso afirmar que foi, no mínimo, diferente. Já a partir do terminal de São Tomé de Paripe foi possível ver como nive os ilhéus. Fomos informados que o barco para Praia Grande só sairia se tivesse passageiros suficientes (não nos foi informado qual número era considerado suficiente), mas que poderíamos ir para outras comunidades. Depois de uma hora de espera pegamos o barco para a comunidade de Itamoabo fazendo uma escala em Botelho (ficamos sabendo depois que essas eram as áreas chiques da ilha).
A nossa chegada à Ilha de Maré foi surpreendente. O assédio dos garçons das pousadas e restaurantes começava dentro do barco e não diferia muito de qualquer região turística do Brasil e quiçá do mundo, mas o inusitado estava no desembarque: no mar, literalmente.
Continuamos sendo disputados pelos garçons enquanto aguardávamos nossos canoeiros e guias que nos levariam até a Comunidade de Martelo onde fizemos mais um desembarque, desta vez no mangue. Após afundarmos na lama que desenhava botas de canos longos em nossas pernas, notamos as raízes aéreas, a areia fofa, as pequenas “piscinas” naturais, as casas de tijolos inacabadas e as de taipa (acabadas?).

Observamos fascinados os pequenos caranguejos rubros e fomos informados que aquilo, na verdade, era Aratu. Fomos informados que os filhos da Ilha que decidem permanecer na região, cultivando as tradições, a cultura, os hábitos, têm suas opções de vida ligadas ao mangue ou o mar. Os homens tornam-se pescadores e as mulheres assumem-se marisqueiras.
Enquanto os pais vão pescar e as mães mariscar as crianças se divertem na dimensão da Ilha. Durante a maré baixa é possível improvisar campo de futebol, espaço para brincar outrs brincadeiras com os amigos e ver o tempo passar. A locomoção e circulação na região são difíceis. Não há estradas, ruas, trilhas sinalizadas ou quaisquer outros meios que possibilitem caminhadas pelo local de forma confortável ou segura. São trechos irregulares ora estreitos, ora altos e sem proteção, e às vezes troncos de árvores improvisam pontes.
Durante a nossa caminhada não vimos hospitais, postos de saúde, postos policiais, nem escolas. Fomos informados que o escritório da EMBASA dispões de apenas 03 funcionários para toda a Ilha e que a COELBA não possui posto de atendimento local. Qualquer problema com o fornecimento de energia é necessário aguardar a chegada dos técnicos de Salvador, o que causa bastante retardo no restabelecimento da prestação do serviço.
A beleza da região não consegue atrair a administração municipal mas, atrai a atenção de turistas e investidores no setor, especialmente estrangeiros que não têm nenhuma relação ou identificação com a cultura local e, muito menos, com as necessidades locais. Entretanto, o movimento de pescadores e marisqueiras da Ilha de Maré consciente dos impactos que esta atividade para a biodiversidade da região, sobretudo quando desenvolvida a partir da perspectiva meramente econômica, tem buscado alternativas turísticas mais responsáveis.
A associação mantém o diálogo constante com a comunidade a fim de preservar as características locais, bem como desenvolver um processo educativo amplo para que a região seja valorizada pelos moradores e, logo, tenha maior possibilidade de ser preservada ante as iniciativas meramente econômicas dos investimentos turísticos.
Apesar das dificuldades apontadas, a Ilha de Maré conta com a atuação do crescente movimento de pescadores e marisqueiras embora haja discordância entre as comunidades que habitam a Ilha, onde algumas delas lutam para serem reconhecidas como comunidades quilombolas e as demais não têm interesse nesse reconhecimento.
A causa disso está nas relações de poder e nos interesses econômicos. As comunidades que desejam esse reconhecimento são as mais tradicionais e defendem sue território lutando para manter suas expressões culturais, artísticas, as tradições, incluindo a pesca e a mariscagem. Já nas comunidades que apresentam menor identificação com este movimento, percebe-se uma incidência bastante acentuada de pessoas de fora (estrangeiros. Estes, priorizam o desenvolvimento turístico da região e buscam a sua modernização. Nestas regiões observa-se casas maiores, tipo sobrados, que são usadas como pousadas ou alugadas para veranistas. Vale registrar que o valor da diária, nestas pousadas, é em média R$ 70,00 na baixa estação, o que pode ser considerado alto se comparado a alguns hotéis 3 e 4 estrelas de Salvador na mesma época do ano.
